A vida sem sonho é o pior pesadelo...


Prepara-te. A qualquer instante, quando menos esperares, alguém fará pouco de teus sonhos. Virá de um canto insuspeitado, do seio de tua família, do campo de teus amigos, da multidão de teus estranhos e fará coro com um bando descrente, rasteiro, numeroso e empenhado em manter a rasa normalidade das coisas.
Juntos, rirão de tuas ambições e teus desejos e intenções essenciais. Tentarão diligentes, aplicarão forças com empenho em seu intento brutal. Como quem laça nas ruas o pescoço de cachorros sem dono e os lança em jaulas frias de ferro e sangue, caçarão teus sonhos mais fundos até arrancá-los de tua alma.
Revela querer o mundo, vai, e dirão que a ti mal cabe o teu quintal. Confessa a tua busca por enxergar além e apontarão a tua cegueira. Defende a luz que te orienta e voltarão a ti um olhar de sombras. Experimenta celebrar a fantasia e julgarão tua loucura como a peste.
Sob tuas narinas ardendo com a fuligem de tanto sentimento baixo, arrastarão casa afora teus velhos propósitos de leveza que o tempo e os deveres de cada dia tornarão pesados como antigas cômodas e penteadeiras e aparadores. Olha ao redor. Tem gente levando teus sonhos embora.
Assim, escarnecendo do que tu queres, tentarão fazer-te desistir, fraquejar, esquecer que tens o tamanho de tua coragem, a gravidade de teus valores e a riqueza de teus sonhos roubados aqui e ali. Aos poucos, sorrateiros como os ratos e as cobras, levam-te o que tens de mais sublime. E tu nem percebes.
Quando te deres conta, serás só uma criatura miserável extorquida de tuas possibilidades, largada à rua da amargura, envolta nos trapos da rotina, racionando tua comida e teus anseios, mendigando atenção falsa.
Antes, defende teus sonhos. Os fáceis e os impossíveis. São eles que nos salvam das vidas cretinas e certezas burras, dos gênios arrogantes, da perfeição idiota, da paralisia barulhenta. É o sonho que nos mantém em movimento. Sonhando, cumprimos nossa vocação essencial de pessoas simples, seres perplexos, criaturas operosas olhando a vida com espanto e humildade.
André J. Gomes

Ahhh.. vida!

Essa vida é mesmo surpreendente. Em uma única existência somos capazes de viver e sobreviver a diversas fases, sob a sorte e a falta dela que nos unge os dias. De uma forma concisa eu poderia dizer que viver é uma sucessão de erros e acertos, de tropeços e saltos, afogamentos, resgates, onde só desfrutamos e valoramos as subidas depois que despencamos ladeira abaixo. E como toda história tem dois lados, na vida não poderia ser diferente. A gente só percebe a vitória e a derrota quando estamos no topo, ou no poço.
A verdade é que os golpes da vida nunca são gentis, muito menos educados ao ponto de anunciar a chegada. Ao lançar-nos no chão parece que um buraco se abre e nos engole, mastiga, degusta e então, cospe. Do que sobra de nós é preciso dar forma e pôr de pé. Morre um para nascer outro, indiscutivelmente mais resistente. Desse jeito, toda vez que recebemos uma pancada desnorteante nos despedimos de um pouco de nós, um fio de esperança se perde, um bocado de confiança vaza, um tanto de boa fé escorre. É possível que nos recuperemos adiante, embora algumas vezes isso não aconteça. Morremos.
Não adianta. A nossa força oriunda das quedas. É por isso que as feridas são imprescindíveis para o crescimento, por mais que nos regalem certa rigidez ao casco. É a capacidade de recomeçar dentro de nós mesmos que nos permite viver outra vez. Somente dessa forma recuperamos a nossa vida. Quando a alegria decorrer em tristeza, quando a leveza se transformar em pesar, é o momento de desprender-se outra vez. E outra, e outra, e outra. Quantas forem necessárias. Em busca da felicidade vamos, endurecendo-nos, mas sem perder a ternura. Jamais.                                                                       Karen Curi
   Imagem: Mariana Almendra

14 de março. Dia nacional da poesia!

E, por menos que eu tenha lido ou até escrito, a poesia sempre habitou em mim. É como se a palavra respirasse dentro do texto. E não importa se é feita se escorrendo numa página em branco ou no embaralhar do pensamento. Não importa suas formas, apenas seus momentos. 



Aos fãs de um bom e instigante suspense!

Agatha Christie é simplesmente fantástica, é a romancista de maior vendagem de títulos da história, atrás apenas da Bíblia e de Shakespeare. Ela é conhecida como a Rainha do Crime, um tributo ao eterno fascínio de seus personagens e à absoluta engenhosidade de suas tramas. Agatha é um escritora genial. E, entre os gênios, ela está entre os mais especiais.
Deixo a vocês, caros e até então raros leitores, os casos mais famosos de Hercule Poirot e Miss Marple, os inesquecíveis detetives criados pela escritora. E um resumo de um de seus livros: Assassinato no expresso do oriente. Nele o detetive belga, então, embarca às pressas no Expresso do Oriente, inesperadamente lotado. O trem expresso, porém, é detido a meio do caminho por uma forte nevasca, e um passageiro com muitos inimigos é brutalmente assassinado durante a madrugada. Caberá a Piorot descobrir quem entre os passageiros teria sido capaz de tamanha atrocidade, antes que o criminoso volte a atacar ou escape de suas mãos; e, a vocês, astutos investigadores, cabe apontar os culpados em meio a espetaculares reviravoltas. 
Temos aqui então, um livro estranho, pungente, águas profundas dotadas de poderosas correntezas ocultas, capaz de aumentar o meu, o seu, o nosso, verniz cultural. 


A lição final

A lição final, de Randy Pausch, foi um dos primeiros livros que eu li fora os paradidáticos do colégio, foi o livro que de certa forma abriu ainda mais as portas do universo literário para mim. Pausch era pai de três filhos pequenos e professor de ciência da computação na prestigiada Carnegie Mellon University. Faleceu em 2008, devido a um câncer de pâncreas. Mas, antes de falecer, Pausch apresentou uma palestra de despedida, onde fala sobre a vida, sobre o tempo, sobre a educação dos filhos e alguns outros temas de maneira bem humorada, inteligente e inspiradora.
Não, não se trata de um livro de autoajuda, mas de um relato baseado em experiências reais de sua vida - das quais, sim, pode-se tirar lições para a nossa própria vida. Segundo Pausch, tanto a palestra de despedida quanto o livro foram as maneiras que ele encontrou para deixar algumas mensagens importantes aos seus filhos. Ambos valem a pena: ver sua palestra e ler seu livro. Porque, no fundo, trata-se de uma herança otimista e generosa para todos nós que continuamos vivos.
Os obstáculos existem por algum motivo. Não estão ali para nos impedir de entrar. Eles existem para nos dar uma chance de mostrarmos a força de nossas aspirações. (pág. 65) As muralhas existem para deter aqueles que não querem realmente transpô-las. (pág. 87)

Minha vida tem tendência de desmoronar quando estou acordado, sabe?

Alguns dizem que o sono é irmão-gêmeo da morte. Eu discordo. Pode ser até que dormir seja a antessala do adeus à vida. A lucidez, o pseudo controle sobre nossos atos e situações, a pretensa sensatez cotidiana se esvaem quando fechamos os olhos. Neste instante perdemos os braços e ganhamos asas cintilantes. Sobrevoamos todo o universo, respirando o melhor oxigênio fabricado pela natureza.
Mergulhamos em momentos únicos e exóticos. Apaixonamo-nos por peixes enormes e abelhas. Encontramos razão de ser e plena satisfação em experiências surreais. Que maravilha, fomentar o descompromisso com a realidade. Deixá-la nua, órfã e crua. Soprar responsabilidades para além de qualquer horizonte. Esmigalhar certezas, calendários, agendas, sisudez.
Desconstruir a matemática e o desfile de equações de todos os graus. Asfixiar horários, paralisar relógios, apagar encontros e desencontros, antes inadiáveis e marcados a ferro e fogo. Contar histórias de fadas para astutas serpentes, distribuir anfetaminas para uma legião de caracóis e beijos íntimos entre tigres e leoas dóceis.
Os sonhos dão passagem a desejos e volúpias de todos os tamanhos. Acolhem absurdos com a tranquilidade de um rebanho de carneiros. Enfrentam tempestades como se estas coubessem placidamente num regador azul. Os sonhos enterram os sustos em locais desconhecidos. Matam os medos a sangue frio, nos tornam mais poderosos que os super-heróis das ficções contemporâneas.
É por isso que eu amo dormir. O sono me conduz através de fios de seda a países imaginários, habitados por criaturas lilases e casas comestíveis. Gigantescos bules de café fresco e fumegante posicionam-se em cada esquina de cidades mágicas, onde os guardas de trânsito ofertam doces aos motoristas em vez de multas. E até porque todos os cidadãos transitam sobre tranquilas bicicletas.
Imagine ser passageiro nesta vida, jamais o condutor. Deixar sua criança interior livre. Suja de barro, molhada chuva, lambuzada de Nescau. Uma criança sempre despenteada e escandalosamente alegre.
Dormir nos exime de qualquer culpa, afasta possíveis castigos da rotina, dilui num breve riacho prisioneiros, penas e prisões. Dormir abre as portas dos cárceres, enquanto liberta o inconsciente dos carrascos que o cercam, nas regiões inóspitas de verdades de pedra, erigidas pela geografia dos tempos e à nossa revelia.
Há quem durma de olhos abertos, flutuando sobre as ruas ou seguindo o belo trajeto das andorinhas. Há quem abrace o paraíso líquido contido em garrafas de álcool. Outros flertam com as possibilidades desenhadas por drogas promissoras. Alguns se entregam ao lento torpor de calçadas sujas, como os mendigos.
O sono, como substituto dos estados de vigília, destina-se aos covardes, fugitivos, dissimulados, fracos — bradarão veementes os juízes do bem viver. Outros afirmarão convictos que viver é uma questão de talento, já que a maioria das pessoas apenas existe.
Acordar muitas vezes é sinônimo de desmoronar. Deslocar-se sem freios nem metas pela rotina. Cair em emboscadas, desaparecer em areias movediças, acreditar piamente em miragens, cujos contornos diluem-se logo ao anoitecer. Mesmo assim, apesar das frustrações, insistimos em grudar os olhos no céu, à procura de estrelas e dos pálidos contornos de uma lua preguiçosa que nos cobre somente de abandonos.
Como é para você essa história toda? Tem nas mãos o leme dos seus projetos? Visualiza as curvas do seu destino, moldando-o conforme suas vontades? Jogou faz tempo o travesseiro e os bocejos pela janela – ou, ao contrário. elegeu sua cama como definitiva, prazerosa e confidente amante?

"Apaixonada por palavras", página 95


Certa vez li em um livro e concordei com as palavras da escritora e assim como ela eu espero ansiosamente pelo tempo da velhice, pois está é a única fase em que a inteligência é considerada mais importante que a beleza.