14 de março. Dia nacional da poesia!

E, por menos que eu tenha lido ou até escrito, a poesia sempre habitou em mim. É como se a palavra respirasse dentro do texto. E não importa se é feita se escorrendo numa página em branco ou no embaralhar do pensamento. Não importa suas formas, apenas seus momentos. 



Aos fãs de um bom e instigante suspense!

Agatha Christie é simplesmente fantástica, é a romancista de maior vendagem de títulos da história, atrás apenas da Bíblia e de Shakespeare. Ela é conhecida como a Rainha do Crime, um tributo ao eterno fascínio de seus personagens e à absoluta engenhosidade de suas tramas. Agatha é um escritora genial. E, entre os gênios, ela está entre os mais especiais.
Deixo a vocês, caros e até então raros leitores, os casos mais famosos de Hercule Poirot e Miss Marple, os inesquecíveis detetives criados pela escritora. E um resumo de um de seus livros: Assassinato no expresso do oriente. Nele o detetive belga, então, embarca às pressas no Expresso do Oriente, inesperadamente lotado. O trem expresso, porém, é detido a meio do caminho por uma forte nevasca, e um passageiro com muitos inimigos é brutalmente assassinado durante a madrugada. Caberá a Piorot descobrir quem entre os passageiros teria sido capaz de tamanha atrocidade, antes que o criminoso volte a atacar ou escape de suas mãos; e, a vocês, astutos investigadores, cabe apontar os culpados em meio a espetaculares reviravoltas. 
Temos aqui então, um livro estranho, pungente, águas profundas dotadas de poderosas correntezas ocultas, capaz de aumentar o meu, o seu, o nosso, verniz cultural. 


A lição final

A lição final, de Randy Pausch, foi um dos primeiros livros que eu li fora os paradidáticos do colégio, foi o livro que de certa forma abriu ainda mais as portas do universo literário para mim. Pausch era pai de três filhos pequenos e professor de ciência da computação na prestigiada Carnegie Mellon University. Faleceu em 2008, devido a um câncer de pâncreas. Mas, antes de falecer, Pausch apresentou uma palestra de despedida, onde fala sobre a vida, sobre o tempo, sobre a educação dos filhos e alguns outros temas de maneira bem humorada, inteligente e inspiradora.
Não, não se trata de um livro de autoajuda, mas de um relato baseado em experiências reais de sua vida - das quais, sim, pode-se tirar lições para a nossa própria vida. Segundo Pausch, tanto a palestra de despedida quanto o livro foram as maneiras que ele encontrou para deixar algumas mensagens importantes aos seus filhos. Ambos valem a pena: ver sua palestra e ler seu livro. Porque, no fundo, trata-se de uma herança otimista e generosa para todos nós que continuamos vivos.
Os obstáculos existem por algum motivo. Não estão ali para nos impedir de entrar. Eles existem para nos dar uma chance de mostrarmos a força de nossas aspirações. (pág. 65) As muralhas existem para deter aqueles que não querem realmente transpô-las. (pág. 87)

Minha vida tem tendência de desmoronar quando estou acordado, sabe?

Alguns dizem que o sono é irmão-gêmeo da morte. Eu discordo. Pode ser até que dormir seja a antessala do adeus à vida. A lucidez, o pseudo controle sobre nossos atos e situações, a pretensa sensatez cotidiana se esvaem quando fechamos os olhos. Neste instante perdemos os braços e ganhamos asas cintilantes. Sobrevoamos todo o universo, respirando o melhor oxigênio fabricado pela natureza.
Mergulhamos em momentos únicos e exóticos. Apaixonamo-nos por peixes enormes e abelhas. Encontramos razão de ser e plena satisfação em experiências surreais. Que maravilha, fomentar o descompromisso com a realidade. Deixá-la nua, órfã e crua. Soprar responsabilidades para além de qualquer horizonte. Esmigalhar certezas, calendários, agendas, sisudez.
Desconstruir a matemática e o desfile de equações de todos os graus. Asfixiar horários, paralisar relógios, apagar encontros e desencontros, antes inadiáveis e marcados a ferro e fogo. Contar histórias de fadas para astutas serpentes, distribuir anfetaminas para uma legião de caracóis e beijos íntimos entre tigres e leoas dóceis.
Os sonhos dão passagem a desejos e volúpias de todos os tamanhos. Acolhem absurdos com a tranquilidade de um rebanho de carneiros. Enfrentam tempestades como se estas coubessem placidamente num regador azul. Os sonhos enterram os sustos em locais desconhecidos. Matam os medos a sangue frio, nos tornam mais poderosos que os super-heróis das ficções contemporâneas.
É por isso que eu amo dormir. O sono me conduz através de fios de seda a países imaginários, habitados por criaturas lilases e casas comestíveis. Gigantescos bules de café fresco e fumegante posicionam-se em cada esquina de cidades mágicas, onde os guardas de trânsito ofertam doces aos motoristas em vez de multas. E até porque todos os cidadãos transitam sobre tranquilas bicicletas.
Imagine ser passageiro nesta vida, jamais o condutor. Deixar sua criança interior livre. Suja de barro, molhada chuva, lambuzada de Nescau. Uma criança sempre despenteada e escandalosamente alegre.
Dormir nos exime de qualquer culpa, afasta possíveis castigos da rotina, dilui num breve riacho prisioneiros, penas e prisões. Dormir abre as portas dos cárceres, enquanto liberta o inconsciente dos carrascos que o cercam, nas regiões inóspitas de verdades de pedra, erigidas pela geografia dos tempos e à nossa revelia.
Há quem durma de olhos abertos, flutuando sobre as ruas ou seguindo o belo trajeto das andorinhas. Há quem abrace o paraíso líquido contido em garrafas de álcool. Outros flertam com as possibilidades desenhadas por drogas promissoras. Alguns se entregam ao lento torpor de calçadas sujas, como os mendigos.
O sono, como substituto dos estados de vigília, destina-se aos covardes, fugitivos, dissimulados, fracos — bradarão veementes os juízes do bem viver. Outros afirmarão convictos que viver é uma questão de talento, já que a maioria das pessoas apenas existe.
Acordar muitas vezes é sinônimo de desmoronar. Deslocar-se sem freios nem metas pela rotina. Cair em emboscadas, desaparecer em areias movediças, acreditar piamente em miragens, cujos contornos diluem-se logo ao anoitecer. Mesmo assim, apesar das frustrações, insistimos em grudar os olhos no céu, à procura de estrelas e dos pálidos contornos de uma lua preguiçosa que nos cobre somente de abandonos.
Como é para você essa história toda? Tem nas mãos o leme dos seus projetos? Visualiza as curvas do seu destino, moldando-o conforme suas vontades? Jogou faz tempo o travesseiro e os bocejos pela janela – ou, ao contrário. elegeu sua cama como definitiva, prazerosa e confidente amante?

"Apaixonada por palavras", página 95


Certa vez li em um livro e concordei com as palavras da escritora e assim como ela eu espero ansiosamente pelo tempo da velhice, pois está é a única fase em que a inteligência é considerada mais importante que a beleza.

Encontrar é se perder. E vice-versa!


Não, eu não tenho certeza de nada. Não imagino o que vai acontecer agora. Sei lá que rumo tomarão nossas vontades estranhas, elas que de tão livres ousaram atravessar a vida e nos descobrir sozinhos aqui, bichos simples e doces na noite alta. Nem desconfio onde isso vai dar, não tenho ideia do caminho a seguir.


Quanto tempo nos cabe, sei tampouco. Nem o tempo suspeita. Só Deus sabe, mas o tempo divino é outro, não é? Acontece para muito além das pequenas coisas cá debaixo. É o insondável, a mirada impossível, a eternidade de cada segundo. Melhor não tentar contar. Mais certo é viver.
Se existir uma ordem secreta dos anjos, uma convenção dos santos, uma resolução divina determinando os encontros incríveis, nós estamos em pauta. Na mira. Sondados pelo destino que nos convida a atravessar a rua correndo, sair na chuva, rasgar velhos papéis, passar o carro na frente dos bois e ver no que dá. No mínimo, os bois agradecerão o instante de remanso na lida só porque você e eu nos encontramos.
Nesses dias de demolição vertiginosa da estima, da ternura e do entendimento, qualquer coisa estranha se deu quando nos achamos. Alguém, em algum lugar, fez uma coisa boa porque duas almas acesas, em estado de franca compreensão, idênticas criaturas do contra, agitadores silenciosos pensando alto de madrugada e falando baixo para não acordar os vizinhos se esbarraram por aí.
Os revólveres emperraram, as guerras cessaram, os ódios amainaram, os ímpetos de morte desapareceram. Nós nos achamos! E isso é tão maior que esse tempo demarcado, restrito! É tão grande que não cabe nos sessenta minutos de cada hora, nas vinte e quatro horas de um dia, nos trezentos e tantos dias do ano. Extrapola, explode e nos divide em milhões de possibilidades espalhadas no tempo e no espaço.
Ah, se o resto do mundo tivesse um tempo próprio como o nosso! Se tudo que há debaixo do céu também obedecesse à nossa lógica simples as coisas seriam diferentes. Seríamos você e eu e os nossos confirmando nossa inclinação profunda para a vida, o trabalho, o amor.
E o mundo seria aos poucos reconstruído em mutirão. Tudo isso há de existir, mas não há aqui, por enquanto, a menor ideia de onde, de que jeito isso irá se dar.
Conosco, temos só essa alegria de quem encontrou o que queria da vida, essa vontade sincera de seguir adiante e nenhuma, nenhuma certeza além da que nos achamos para nos perder. E vice-versa.

André J. Gomes

Um sertanejo a cismar no cenário deste admirável mundão velho


O galo já estava cantando. O clarão já era visita quando e o sertanejo se pôs a cismar:
Meu Deus! Esse mundo tão desumano, tanta falta de juízo!
Um bocadinho mais de amor, no coração do homem é preciso.
Ele precisa sentir no peito os encantos do meu sertão
A gentileza de um luar prateando a escuridão
Pisar num chão de terra e os pés no riacho molhando
Encher os seus olhos d’água vendo o sol se arretirando
Tem que ter a alegria de um caboco admirando
O regresso da asa branca e a mata esverdeando
Tirar um cochilo na rede, e se por a espiar
O beija-flor na varanda e a cantiga do sabiá
Tô achando o homem tão só falta-lhe mesmo é um xodó
Que o faça suspirar.
Mas o som da bomba que mata é uma triste cantoria!
Se no coração dele eu pudesse,
Botava um tiquinho de prece e um punhado de alegria:
O sol raiando cedinho
E o orvalho banhando a flor
A água fria na cacimba
As rimas do cantador
O retrato na parede
A quermesse e o leilão
A reza do sertanejo
Ajoelhado sobre o chão
A benção do pai e da mãe
O abc da escolinha
O sonho do menino
Os versos da professorinha
De noite o céu estrelando
O fole do sanfoneiro
A poeira levantando
Na luz do candeeiro
Há, se ele enxergasse pelos olhos desse menino. 
Acalmaria o desatino... Os canhões emudeciam...
A arma seria a flor...
E o cabra se convencia
Que não tem melhor sinfonia
Que a entoada do amor.

Josiana Cardoso