Um sertanejo a cismar no cenário deste admirável mundão velho


O galo já estava cantando. O clarão já era visita quando e o sertanejo se pôs a cismar:
Meu Deus! Esse mundo tão desumano, tanta falta de juízo!
Um bocadinho mais de amor, no coração do homem é preciso.
Ele precisa sentir no peito os encantos do meu sertão
A gentileza de um luar prateando a escuridão
Pisar num chão de terra e os pés no riacho molhando
Encher os seus olhos d’água vendo o sol se arretirando
Tem que ter a alegria de um caboco admirando
O regresso da asa branca e a mata esverdeando
Tirar um cochilo na rede, e se por a espiar
O beija-flor na varanda e a cantiga do sabiá
Tô achando o homem tão só falta-lhe mesmo é um xodó
Que o faça suspirar.
Mas o som da bomba que mata é uma triste cantoria!
Se no coração dele eu pudesse,
Botava um tiquinho de prece e um punhado de alegria:
O sol raiando cedinho
E o orvalho banhando a flor
A água fria na cacimba
As rimas do cantador
O retrato na parede
A quermesse e o leilão
A reza do sertanejo
Ajoelhado sobre o chão
A benção do pai e da mãe
O abc da escolinha
O sonho do menino
Os versos da professorinha
De noite o céu estrelando
O fole do sanfoneiro
A poeira levantando
Na luz do candeeiro
Há, se ele enxergasse pelos olhos desse menino. 
Acalmaria o desatino... Os canhões emudeciam...
A arma seria a flor...
E o cabra se convencia
Que não tem melhor sinfonia
Que a entoada do amor.

Josiana Cardoso

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